by Mario Bauer

Há 40 anos perdemos Jim Clark

Jim Clark

Hoje há 40 anos atrás o mundo soube em choque do acidente fatal de Jim Clark durante uma corrida de Formula 2 no Hockenheimring na Alemanha. Muito tem sido escrito e dito sobre o Escocês, a maioria concorda que ele foi um dos melhores pilotos de competição de todos os tempos, se não o melhor. Colin Chapman, um gênio na construção de carros de corrida e o homem que descobriu e norteou o talento de Jimmy, escreveu as seguintes linhas para o livro de Graham Gauld “Jim Clark: tributo a um grande piloto”


” A primeira vez que ouvi falar de Jim Clark foi através de Jock McBain, que já há 2 ou 3 anos comprava carros Lotus esporte. Ele mencionou esse jovem fazendeiro, já legendário na região da fronteira com a Escócia, que ele achava que era muito, muito bom piloto. Uma das primeiras ocasiões em que encontrei Jimmy foi quando ele veio a Brands Hatch testar um F2 para a equipe Border Reivers. De cara me impressionei com o modo como pilotava, especialmente porque era sua primeira vez num monoposto, e também sua primeira vez naquela pista. Ele era firme, consistente e, basicamente, plenamente competente. Mais ou menos na mesma época, ele pilotou um Lotus Elite para Border Reivers em Le Mans, indo realmente muito bem, e minhas impressões de sua performance só cresceram quando depois competiu com outro Elite, de novo em Brands Hatch, no feriado depois do Natal.

Eu pilotei nessa mesma corrida, e tivemos uma bela disputa juntos. Imediatamente após a corrida eu perguntei a ele se gostaria de se juntar à equipe Lotus. Isso foi num período em que a equipe estava em transição, de um time em que eu era o piloto principal, e assim o tinha todo trabalhando para mim, para um time que eu patrocinaria para outros pilotos correrem.

Essa transição coincidiu com a vinda de Jimmy, que foi então o primeiro a realmente entrar na equipe como piloto principal. Então evoluímos juntos: Lotus estava se iniciando em corridas de Grand Prix, assim como Clark. O fato de ambos estarmos aprendendo juntos tornou nossa associação muito interessante, e muito frutífera.

De minha parte, eu senti desde o início que ele era tão bom, e um cara com quem me identificava tanto, que eu poderia abandonar a pilotagem e centrar-me puramente em produzir carros para que Jimmy os pilotasse. E foi isso o que aconteceu. Nós sempre nos demos muito bem – nós pensávamos iguais, agíamos igual, queríamos sempre fazer um trabalho de primeira linha, e aprendíamos sobre as corridas juntos. Isto é algo que nunca mais se repetirá comigo nas corridas, porque todos os problemas, todos os sucessos, e toda angústia que passamos juntos (e tem um bocado de angústia no automobilismo). No meio disso tudo Jimmy percebia que nós dois estávamos achando nosso lugar e era muito cooperativo, amigável mesmo. Para mim, isso fez com que tudo fosse agradável, fácil e prazeroso.

À medida que progredíamos, ele também desenvolveu um conhecimento técnico soberbo. Quando começou conosco, ele não tinha, claro, a vantagem de uma base formal de engenharia. Mas tinha sim o que eu só posso descrever como um grande intelecto, e pegava o lado técnico da coisa tão rápido que depois de um tempo eu podia interpretar suas expressões quanto ao carro, seu manejo, suas exigências e assim por diante. E claro isto facilitou para mim de desenvolver carros melhores.

Embora, inicialmente, ele não fosse um piloto de desenvolvimento no sentido que damos ao termo, eu acho que consegui melhores resultados com ele do que com um piloto treinado na engenharia. Pois Jimmy não tinha idéias pré-concebidas, ele ficava satisfeito em reportar os fatos, em dizer o que tinha acontecido, e não tentar tirar suas próprias conclusões. Isso Jimmy nunca fez.

Penso que o principal em Jim Clark enquanto piloto é que era tranqüilo, estava sempre no comando da situação e muito raramente pilotou além de 90 por cento de sua capacidade. O resultado era que sempre parecia ser suave e extremamente competente. Tinha tanta habilidade natural que dirigia para si mesmo muito mais do que a maioria dos outros fazia.

Jim Clark, Lotus 49

Houve ocasiões em que ele pilotou realmente duro e estas eram as raras ocasiões em que mostrou seu puro gênio, por poder ser tão mais rápido que qualquer outro piloto de sua época. Eu me lembro do GP da Alemanha de 1962 no Nürburgring, quando ele se esqueceu de ligar as bombas de combustível na largada e ficou para trás. Isso era o tipo de coisa que despertava um tigre nele, porque ele sentia, certo ou não, que tinha cometido um erro e era com ele resolver o problema. Ele pilotou tão bem naquele dia, que, apesar de chegar apenas em quarto, eu incluiria aquela entre suas melhores performances. Mesma coisa, no GP da Itália de 67 em Monza ele fez algo que até então eu, e creio a maioria das pessoas, achava impossível. Ele teve um pneu furado logo no início, que o deixou uma volta e um quarto atrás de todos, e em Monza ele descontou toda essa diferença – mesmo se você tiver a capacidade de ir mais rápido que os outros pilotos, em Monza invariavelmente você termina puxando alguém no seu vácuo.

Mas Jimmy acabou alcançando os líderes, os deixou, e então descontou toda a volta atrás deles. Foi de um virtuosismo que acho nunca nenhum outro piloto igualou ou será capaz de superar. Aquela foi uma das poucas vezes na carreira de Jimmy em que ele pilotou no seu máximo, cem por cento. Nos dez anos que pilotou para mim, eu consigo lembrar de apenas outras quatro ou cinco ocasiões em que realmente teve de usar todos seus recursos. Porque geralmente ele fazia uma largada muito rápida, saindo à frente de todos, já os desmoralizando. A partir daí seguia um plano próprio que conservava a máquina, conservava as suas próprias energias, e era adequado a vencer a corrida.

Eu nunca o controlei quando ele estava correndo, tudo que fiz foi lhe dar o máximo de informação, e deixá-lo fazer sua corrida. Acredito que o piloto é o único qualificado a tomar decisões, como por exemplo o quão veloz seguir; ele é o único que pode medir sua capacidade, o quanto ele e o carro podem ser forçados, qual a condição da pista, e assim por diante. Eu penso que é absolutamente fútil para qualquer chefe de equipe, que se preze como tal, tentar direcionar um carro durante uma corrida. Seu propósito é dar informação ao piloto; este decide sobre a tática da corrida e pilota de acordo com isso.

Eu não acho que é verdade que ele sempre era mais contente num monoposto, ou que ele tenha jogado para a torcida, jamais. Por exemplo, eu acho que ele gostava de correr com os Cortina só porque ele gostava de corridas – ele tinha muita diversão com aquele carro. Na verdade ele me dizia que algumas das corridas que ele mais gostava do ponto de vista pessoal, era quando pilotava Cortinas, porque o carro era relativamente difícil – não era um carro de corrida muito preciso, era um carro com que se podia brincar um pouco. Ele podia fazer todo tipo de coisas ridículas com o carro, e ele só curtia – não para agradar a platéia, mas a si mesmo. Nem acho que Jimmy notasse o público, certamente nunca competia para seu público como tal. Corria para si mesmo.

Jim Clark, Lotus 38, Indianapolis 1965

Penso que ele gostava também de carros esporte. De fato ele gostava de tentar diferentes formas de corridas – isso foi algo que permeou sua carreira. Este realmente é o motivo porque ele foi a Indianápolis, certamente não foi pelo bafafá que acontece em torno da corrida, mas por ser uma novidade para ele, e queria experimentar. Pelo mesmo motivo, depois tentou uma corrida de stock car americana, meramente pela novidade, ele gostava de encarar uma novidade. Ele conseguia se divertir tanto num carro de corrida quanto num kart. Qualquer coisa que necessitasse coordenação e controle o interessava. Pela mesma razão gostava muito de voar. Eu me lembro pouco antes de seu acidente, ele falava sobre seu futuro e sobre o que ia fazer quando parasse de correr, dizia que finalmente tinha decidido o que fazer e que não iria voltar à atividade fazendeira. Ele ainda gostava disso, mas acho que teria sentido dificuldade em voltar depois de toda a excitação e agitação das corridas, voando e com a vida que levava no esporte. Eu acho que ele queria se estabelecer em alguma área do ramo da aviação. Ele tinha já investido nesse ramo na Austrália, embora não creio que fosse se estabelecer por lá, como alguns imaginaram. Com certeza gostava muito da Austrália e Nova Zelândia, do clima e das pessoas lá, principalmente da Austrália. Não sei se ele teria se mudado para lá, acho que ele teria ficado na Europa mesmo.
É difícil dizer por quanto tempo teria seguido correndo. Nós tínhamos conversado brevemente sobre isso e penso que ele certamente teria presenciado a F1 até o fim de 1970.

Em sua carreira, uma corrida que nunca conquistou, mas adoraria ter vencido, foi o GP de Mônaco. Alguns circuitos ele sabidamente não gostava – Spa acima de tudo. Ele achava muito perigoso, e sempre ficava contente após terminar os GPs lá. Isto pode ser devido ao fato de que no seu segundo GP oficial (Bélgica 1960) presenciou a morte de seu companheiro de equipe Alan Stacey, uma impressão ruim que permaneceu com ele. Por certo a temporada sempre parecia mais tranqüila para ele depois de passada a etapa em Spa.

Nunca gostou muito de Silverstone, não pelo perigo, apenas o achava desinteressante. Mas, assim como Mônaco, gostava muito do Nürburgring – outro de seus favoritos, porque esses dois eram mais desafiadores do que a maioria dos outros.

Uma das coisas sobre Jimmy era a habilidade de adaptar-se, ou de se treinar, para lidar com qualquer situação nova na vida. Isso apareceu em seu crescimento como figura internacional. Quando se tornou campeão pela primeira vez, as falas e aparições públicas que tinha de fazer eram muito estranhas para ele, e teve que dar duro nisso. Mas, como qualquer coisa que encarasse, rapidamente dominou este aspecto de sua carreira. Foi só mais um problema para ele, e em menos de um ano estava resolvido.
Se não tivesse sido um piloto de primeira linha, estou certo teria estado no topo de qual fosse a profissão que tivesse adotado.

Tenho pensado muito sobre Jimmy e sobre pilotos de corrida e tentado analisar o que o fazia ser tão melhor que os outros e acho que tudo se resume ao intelecto muito superior que tinha consigo. Era muito rápido para compreender uma dada situação, e não só quando pilotava. Sua mente tinha o poder de separar o que era não era prioridade em questões importantes, e com certeza isso é marca de alguém que é verdadeiramente grande em qualquer profissão, marca de quem pode separar o trivial do essencial.
Tinha também excepcionais atributos físicos, como a visão e coordenação motora.
Não só os teve, mas tinha a habilidade mental de explorá-los, mais um tremendo autocontrole que deve ter vindo de sua criação familiar e de sua escola. Eu tive maior contato com seus pais somente após seu acidente, e vendo o modo como reagiram à adversidade, entendi de onde vinha esta fantástica obstinação.
Ser fazendeiro deve ter tido sua parte em seu feitio também, pois fazendeiros em geral têm de aceitar a vida e suas involuções num grau maior do que a maioria das pessoas – têm de aceitar a influência que o clima e outras coisas fora de seu controle exercem sobre suas vidas e sua prosperidade. E talvez isso se mostrasse no modo como Jimmy recebia, com certa resignação, certos problemas da vida. Essa capacidade o fez lidar com eles excepcionalmente bem.


Jim Clark, Lotus 49T-Cosworth 2.5 V8, 1968

Observando outros pilotos de corrida, eu penso que, sem preconceitos – embora eu deva admitir ter um pouquinho – não posso ver nenhum que tenha perto de toda a habilidade geral que Jimmy tinha. Realmente, sua habilidade era tão maior do que ele jamais mostrou. Como eu disse antes, ele muito raramente pilotou na sua capacidade total, e isso faz a sua diferença entre si e os outros ser ainda maior. Por certo maior do que os números da carreira mostram. Não era o que fazia, era como fazia. Fazia com tais reservas de capacidade, que era quase inacreditável alguém ter tais reservas.
Apesar de sua projeção como piloto, eu acho que sua maior influencia, ao menos sobre mim e sobre outros próximos a ele, não era sua habilidade na pilotagem, mas seu sucesso como pessoa. Ele era tão bem ajustado à vida e seus problemas, tinha tamanha integridade que é muito difícil para outros se compararem, se colocarem no mesmo nível. Era honesto, estava sempre em forma – integridade é a melhor palavra para descrever suas qualidades. Esse é a pessoa que sempre recordarei, não apenas o recordista de vitórias. Era um homem que estabeleceu um exemplo aos outros.”

Artigo escrito por Colin Chapman

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